Porque Mato Grosso possui tanta biodiversidade?

Porque Mato Grosso Possui Tanta Biodiversidade?

Rafael Nunes & Flávia Nogueira

Nossa relação ancestral e presente com a biodiversidade

Desde tempos imemoriais a biodiversidade do continente americano é relatada por seus moradores em diferentes épocas e contextos. Muito tempo antes da América possuir tal denominação, nossos ancestrais já pintavam em lajedos e paredes de cavernas, as formas de animais e plantas mais comuns em seu cotidiano. Inúmeras nações indígenas detiveram e detêm um vasto conhecimento acerca das espécies de plantas e suas aplicações cotidianas. O hábito de relatar as formas de vida que nos cercam continuou com inúmeros relatos fascinados de naturalistas na época das grandes navegações europeias. Nos dias de hoje, as descrições dessas formas vida e suas interpretações e derivações constituem uma prática científica amplamente difundida.

Mas, o que é biodiversidade?

O conceito foi consolidado e popularizado pelo naturalista americano Edward Wilson, que a caracteriza como o conjunto de espécies, suas formas viventes e suas redes de interações com os diversos elementos (inclusive as próprias espécies) encontrados nos ecossistemas do planeta.

A biodiversidade, portanto, é um conceito relativo, que pode ser aplicado de forma difusa em diversos contextos e em diversas delimitações. Podemos falar na biodiversidade do continente americano, com todos os milhões de espécies de plantas, animais, fungos, bactérias e outras formas de vida habitando os diversos ecossistemas terrestres e aquáticos que existem no continente. Também podemos falar da biodiversidade de um país ou um estado – literalmente definida pelos limites geográficos criados por nós. No cotidiano podemos facilmente observar a biodiversidade dos nossos quintais, hortas, jardins e praças – aquele conjunto de formas, algumas ocorrendo ali espontaneamente, outras sendo introduzidas por nós mesmos. Em uma observação mais detalhada e atenta, nos fascinamos com a biodiversidade que pode ser encontrada em um aquário ou uma poça d’água nas épocas de chuva. E, porque não, a biodiversidade está presente até mesmo nos interiores de nossas casas, muitas vezes imperceptível aos nossos olhos.

Aplicando esse conceito ao nosso cotidiano, vemos que a biodiversidade na verdade, é um pré-requisito para a nossa existência no planeta. Não haveria possibilidade de sobrevivência da nossa espécie – quiçá de todos os mamíferos, sem a presença de plantas para alimentação, cultivo e regulação climática do planeta. Nossos processos fisiológicos, como a digestão, dependem diretamente de micro-organismos para serem conduzidos de forma saudável. Boa parte das prateleiras de farmácias e supermercados são, na verdade, um simulacro da biodiversidade que está lá fora – imagine a quantidade limitada de produtos que você poderia comprar nesses estabelecimentos se houvessem pouquíssimas espécies de plantas e animais.

Porque existem tantas espécies?

Dessa forma, ao olharmos para os limites territoriais de Mato Grosso, podemos ter uma noção da intricada rede de organismos que podem habitar os diversos rios, morros, chapadas, lagos, cerrados e florestas que existem no estado. À primeira vista fica óbvio que parte dessa biodiversidade é justamente o atual motor econômico de Mato Grosso – o domínio das culturas de grãos, cereais, do boi e da agricultura familiar é claramente um resquício histórico do domínio da humanidade sobre alguns elementos da biodiversidade – nesse caso as espécies que conseguimos domesticar e nos alimentar.

Em um olhar mais profundo, podemos perder a nossa noção de tempo – e até a sanidade mental, quando começamos a catalogar a quantidade absurda de formas de vida que vivem dentro dos limites territoriais do estado. A atividade de catalogar tamanhas especificidades constantemente incorre na pergunta: quantas espécies existem em Mato Grosso? São milhares, talvez milhões. O que incorre em outra pergunta, porque Mato Grosso possui tanta biodiversidade?

Receio que uma resposta exata dessa pergunta dependa da redação de centenas de teses de doutorado e da dedicação de várias gerações de pessoas destinadas a trabalhar exclusivamente com essa temática. Felizmente, com a ajuda do conhecimento compilado pela humanidade e, obviamente, do Google, podemos ter pelo menos um indicativo de algumas respostas à essa pergunta.

Nos anos 1950, o naturalista George Hutchinson, ao observar pequenos insetos aquáticos em lagoas temporárias no sul da Itália, percebeu que diversas espécies, mesmo que muito semelhantes, conseguem conviver em uma delicada sobreposição de nichos e hábitos ecológicos. Para Hutchinson, aquelas pequenas lagoas, mesmo sendo ecossistemas relativamente simples, davam possibilidades ambientais para que dezenas de espécies ocorressem no mesmo local. Não a toa, o brilhante naturalista, intitula um dos seus artigos mais célebres com a pergunta “porque existem tantas espécies?”.

Se pequenas lagoas, com variáveis ambientais e nichos ecológicos aparentemente imperceptíveis e limitados, dão possibilidade da coexistência de algumas espécies, o que esperar então de um contexto que une milhões (ou bilhões) de variáveis ambientais e nichos ecológicos? É o que devemos pensar ao tentar entender a biodiversidade do nosso Estado.

Riqueza da natureza matogrossense

Mato Grosso possui vasta extensão de três tipos de biomas (que podem ser entendidos como vastos ecossistemas): Amazônia ao norte, Cerrado no centro, e Pantanais à leste (Araguaia) e à oeste (bacia do Rio Paraguai). Por si só, a presença desses três biomas é uma boa explicação para a altíssima biodiversidade mato-grossense, mas não esqueçamos que tais biomas se encontram, formando áreas de transição. Em alguns contextos, como o das Chapadas dos Guimarães, dos Parecis, do Roncador entre outras, a parte alta da chapada, o planalto, possui espécies típicas de Cerrado. Esta vegetação por sua vez é entremeada por florestas fluviais ou de ou de pé-de-morro, que possuem em grande parte a composição de espécies amazônicas. Os rios que nascem nos pés dessas chapadas, por sua vez, dão origem à vasta áreas úmidas, ou Pantanais, que também abrigam espécies típicas deste bioma.

Além da presença de três biomas, cada bioma dentro do estado apresenta suas particularidades. Na porção amazônica, são encontrados diversos tipos de florestas – umas que crescem em ambientes mais alagadiços, outras que florescem em solos mais rochosos. O mesmo ocorre para as áreas de cerrado – a depender de diversos fatores ambientais, podemos encontrar mais de dez tipos de vegetação só de cerrado! É quase óbvio dizer o mesmo do pantanal, visto que cientistas ainda trabalham arduamente para classificar e entender as áreas úmidas do estado.

Um outro fator explicativo para tamanha biodiversidade é a história de Mato Grosso. Não apenas a história colonial, que remete a poucas centenas de anos, ou a história das nações indígenas, que remete a alguns milhares de anos neste território. Aqui falo do tempo profundo – Mato Grosso existe, na verdade há milhões de anos!

Biodiversidade ancestral de Mato Grosso

Um observador mais atento pode, em um agradável passeio à cachoeira Véu-de-Noiva em Chapada dos Guimarães, encontrar diversas conchas minúsculas fossilizadas. Em um acesso de curiosidade, esse observador ou observadora descobre que aquelas conchas são de origem marinha e são datadas do Devoniano – ou seja, devem possuir cerca de 300 milhões de anos! A mesma pessoa que queira se engajar em tais observações, pode ainda na Chapada dos Guimarães, visitar o Morro Cambembe e achar restos de titanossauros que, pasme-se datam do Cretáceo, ou seja, a cerca de 65 milhões de anos! Assim como não seria surpresa encontrar no estado restos de ossos de mamíferos enormes, como a preguiça gigante ou o tigre dente de sabre, extintos apenas a 20.000 anos.

O ponto é que, além da dimensão espacial, o que explica a biodiversidade daqui é a longa história do terreno que estamos habitando atualmente. Imagine que a mais de 300 milhões de anos, os Andes não existiam (da forma como o conhecemos agora), e toda a porção oeste do estado, na verdade, era um braço de mar. Nessa época também, as plantas não eram como conhecemos agora. Imagine o quanto as florestas amazônicas da área atual do estado expandiram ou retraíram seus limites desde 60 milhões de anos atrás, formando “ilhas” de florestas que poderiam permitir o surgimento de novas espécies, endêmicas, isto é, exclusivas daquele tipo de habitat. Além do surgimento de novas espécies, diversas outras foram extintas, como os próprios dinossauros e as conchinhas de Lingula que achamos em Chapada. Os longos ciclos de extinções e especiações (surgimento de novas espécies) também é diretamente responsável pela absurda biodiversidade daqui.

Ameaças à Biodiversidade

Atualmente, apesar de vivermos uma época que permite a descrição de tais elementos, também nos deparamos com o fato de que uma parte significativa desses elementos, ou espécies, encontram-se ameaçadas. E nesse caso, a extinção não é seguida do surgimento de novas espécies, porque não há tempo para tal – o surgimento de uma espécie pode demorar milhares de anos. Os fatores são diversos: remoção de áreas naturais para agricultura e expansão das cidades, envenenamento dos ecossistemas, introdução de espécies exóticas de outros ecossistemas entre outros.  

Em uma compilação rápida da lista de animais e plantas ameaçados de extinção do Brasil, provida por um trabalho multidisciplinar do Ministério do Meio Ambiente, podemos encontrar mais de 70 espécies de animais ameaçadas de extinção no estado – desde borboletas, passando por cobras, sapos e até mamíferos grandes como primatas e a onça-pintada. Para as plantas, 31 espécies de árvores, como o mogno, jatobá e castanheira estão ameaçadas no Estado. Isso quer dizer que essa centena de espécies corre o risco de desaparecer nos próximos anos – restando a sua memória em fotografias, relatos, artigos e museus.

Apesar da extinção ser um processo natural no nosso planeta, devemos refletir que nosso modo de vida é diretamente responsável pelo iminente desaparecimento dessas espécies – de uma forma rápida e não permitindo a recuperação e o reaparecimento de novos elementos da biodiversidade. É possível vislumbrar as consequências sórdidas da extinção de espécies no nosso cotidiano – diversas delas prestam serviços ambientais como a polinização – essencial a várias culturas agrícolas do nosso estado. Outras, principalmente árvores, garantem abrigo para uma infinidade de outras espécies além de prestarem serviços de regulação climática e areação do solo, por exemplo.

Utilitarismo: devemos conservar apenas o que nos serve?

E para as espécies que ninguém liga? Conforme exposto acima, é fácil entender o perigo de se extinguir uma espécie “útil”, mas e as espécies sem aplicação direta ou prática, que “ninguém liga”? Quando um pequeno piolho-de-cobra (semelhante a uma centopeia) está em vias de extinção (o caso da espécie Dioplosternus salvatrix aqui no estado), qual será o efeito prático para a humanidade? Provavelmente o impacto direto será muito pouco ou nada observável durante o tempo de vida de um ser humano no planeta.

Para entender profundamente essa ameaça, devemos voltar nossas consciências a tempos ancestrais. Há alguns milhares de anos, não se poderia prever a aplicação de uma espécie delicada de planta como um determinado remédio ou dos serviços ambientais mundiais que as minhocas poderiam prestar. A medida que evoluímos nosso entendimento da Terra, as espécies tendem a adquirir mais importância.

Entretanto, também devemos estender nossa consciência para além da nossa espécie. Isso é traduzido no questionamento, porque temos a prerrogativa de decidir pela extinção de determinada forma de vida? Digo “decidir”, porque boa parte das extinções são, nada mais, produto de longo prazo da nossa tomada de decisões, como por exemplo o barramento um rio para a construção de uma hidrelétrica, o desrespeito a uma unidade de conservação ou a aplicação exagerada de veneno nas plantas que comemos. A extinção de uma espécie nos dias atuais também é uma decisão nossa no sentido de que temos conhecimento suficiente para encontrar outras alternativas que não a destruição.

As espécies, integrantes da grande rede da biodiversidade, são uma “reserva” genética da vida, uma mostra das inúmeras estratégias de viver que a natureza encontrou nos meandros da evolução. Em outras palavras, cada espécie é uma solução para a vida no planeta e, cada espécie é produto de centenas, milhares, milhões de anos de evolução em um planeta que em bilhões de anos manteve um certo equilíbrio. Convém, portanto, o questionamento: Porque o ser humano tem a prerrogativa de, deliberadamente, extinguir espécies?

Perspectivas

A biologia da conservação é a ciência que estuda estratégias e métodos de manter o patrimônio genético e das espécies que habitam o planeta. É uma ciência relativamente nova, tem cerca de 40 anos mas que já demonstrou diversas estratégias que favorecem a conservação da biodiversidade.

Uma dessas estratégias é a elaboração de listas vermelhas de espécies ameaçadas. As listas, por si só, não vão garantir a preservação de espécies, mas direcionam os esforços da sociedade e Estado em prol da conservação de uma determinada espécie – determinando por exemplo, a proibição de caça ou sua proteção em uma Unidade de Conservação. Secundariamente, ao pensar a preservação de uma espécie que conste em uma lista vermelha, estaremos pensando a conservação dos habitats nos quais essa espécie vive a conservação das espécies com as quais ela interage – o famoso conceito de espécie guarda-chuva na conservação. Nesse tocante, Mato Grosso ainda carece de uma avaliação do risco de extinção das espécies que aqui ocorrem.

O estado de Mato Grosso possui valiosas oportunidades de integrar o maior número de elementos da biodiversidade ao seu modo cultural e de produção econômica, respeitando e preservando assim, seu próprio patrimônio natural.

O estímulo ao consumo de plantas alimentares não convencionais em alternativa ao consumo massivo de produtos de grandes culturas, estímulo à agroecologia e agricultura familiar, ao turismo de observação de espécies, aos cuidados das espécies abandonadas ou feridas em estradas, à criação e exploração correta de Unidades de conservação são estratégias claras e bem consolidadas – mas não aplicadas em larga escala, para conservar a biodiversidade mato-grossense.

Mais do que simples estratégias de conservação ambiental, são essas práticas que irão permitir exercer a conservação da biodiversidade como nosso dever previsto na Constituição. E apenas o cumprimento desse dever irá permitir o usufruto pleno das beneficies patrimônio ambiental e da biodiversidade, de modo que nos próximos anos ainda possamos nos surpreender com a incrível biodiversidade mato-grossense.

 

Sobre os autores:

Rafael V. Nunes é biólogo e doutor em Ecologia e Conservação da Biodiversidade, atualmente na assessoria da Procuradoria de Justiça Especializada em Defesa Ambiental e Ordem Urbanística do Ministério Público de Mato Grosso.

Flávia Nogueira é bióloga e doutora em Ecologia e Recursos Naturais, atualmente Professora do Instituto de Biociências da Universidade Federal de Mato Grosso.

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